quilombolas do Tocantins
Quilombolas do Tocantins iniciaram a construção de planos de adaptação climática para proteger territórios tradicionais, fortalecer a segurança alimentar e enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação distante para se tornarem uma realidade cada vez mais presente no cotidiano de comunidades tradicionais brasileiras. No Tocantins, povos quilombolas têm sentido de forma direta os efeitos das alterações no clima, especialmente por meio de secas prolongadas, mudanças no regime de chuvas, dificuldades na produção agrícola e pressões provocadas pelo avanço de grandes empreendimentos.
Diante desse cenário, a Alternativas para a Pequena Agricultura no Tocantins (APA-TO) e a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO) deram início a uma importante iniciativa voltada à construção de estratégias de enfrentamento desses desafios.
Nos dias 30 e 31 de maio, as duas instituições realizaram, na sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Dianópolis, o seminário de lançamento do projeto “Planos de Adaptação Climática para Quilombos no Tocantins”, iniciativa apoiada pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS).
O encontro reuniu lideranças quilombolas, representantes de assentamentos rurais, movimentos sindicais e organizações sociais para discutir os impactos das mudanças climáticas nos territórios tradicionais e construir caminhos para fortalecer a resistência das comunidades.
Quilombolas do Tocantins constroem estratégias de adaptação
O projeto atenderá inicialmente cinco comunidades quilombolas localizadas na região Sudeste do Tocantins: São Joaquim, Poço Dantas, Lajeado, Baião e Laginha.
A proposta é desenvolver diagnósticos participativos, mapear vulnerabilidades climáticas e elaborar planos de adaptação construídos a partir da realidade de cada território.
Segundo os organizadores, o objetivo não é apenas identificar problemas, mas criar instrumentos concretos que permitam às comunidades se preparar para os desafios ambientais que tendem a se intensificar nos próximos anos.
A abertura do seminário foi conduzida por Laelson Ribeiro de Souza, coordenador do projeto e liderança do Quilombo Baião, que destacou a importância da iniciativa para fortalecer a organização comunitária e ampliar a defesa dos direitos quilombolas.
O encontro também contou com a participação de Francisco Gomes, presidente da APA-TO e diretor da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Tocantins (FETAET), que apresentou a trajetória da entidade e seu histórico de atuação junto à agricultura familiar e aos povos tradicionais.
Mudanças climáticas afetam comunidades tradicionais
Ao longo da programação, um dos momentos mais significativos foi a roda de diálogo entre representantes das comunidades participantes.
As lideranças compartilharam experiências e relataram como as mudanças climáticas vêm afetando diretamente seus modos de vida.
Entre os principais problemas apontados estão as alterações nos períodos de chuva, o aumento das temperaturas, a redução da disponibilidade de água, a diminuição da produtividade agrícola e o comprometimento de atividades que garantem a segurança alimentar das famílias.
Os relatos evidenciaram uma preocupação crescente com o futuro das comunidades, especialmente diante da dependência que muitas delas possuem dos recursos naturais para sua sobrevivência econômica e cultural.
Além dos impactos climáticos, os participantes também chamaram atenção para os efeitos provocados por atividades econômicas desenvolvidas nas proximidades dos territórios quilombolas.
Questões relacionadas à expansão do agronegócio, desmatamento, uso intensivo dos recursos hídricos e mineração foram amplamente debatidas durante o seminário.
Justiça climática e direitos territoriais em debate
A programação contou ainda com rodas de conversa conduzidas por Paulo Rogério Gonçalves, da APA-TO, e pelos coordenadores da COEQTO, Maryellen Crisóstomo e Lourivaldo dos Santos.
Durante os debates foram apresentados dados científicos e análises sobre o avanço das mudanças climáticas em escala global, nacional e estadual.
As discussões buscaram aproximar o conhecimento técnico da realidade vivida pelas comunidades, fortalecendo a compreensão sobre os desafios ambientais e as possibilidades de adaptação.
Outro destaque do encontro foi a apresentação do material “Educação em Direitos Raciais e Quilombolas”, elaborado por Maryellen Crisóstomo em parceria com Jessica Painkow.
A publicação busca fortalecer o conhecimento sobre direitos raciais, cidadania e valorização das identidades quilombolas, servindo como instrumento de formação e transformação social.
Segundo os organizadores, o conteúdo será disponibilizado em breve no site da COEQTO para acesso público.
Mineração gera preocupação nas comunidades
O segundo dia do seminário foi marcado por intensos debates sobre os impactos da mineração nos territórios quilombolas da região Sudeste do Tocantins.
A situação das comunidades localizadas no município de Almas esteve entre os principais temas abordados.
As lideranças relataram preocupações relacionadas às atividades desenvolvidas pela mineradora Aura Minerals nas proximidades dos territórios tradicionais.
De acordo com representantes da COEQTO, a empresa não realizou o Estudo do Componente Quilombola, procedimento considerado fundamental para avaliar os impactos da atividade mineral sobre as comunidades afetadas.
A ausência desse estudo, segundo os movimentos sociais, representa uma violação do direito à consulta livre, prévia e informada, garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Durante a programação também foi apresentada uma Ação Civil Pública ajuizada conjuntamente pela COEQTO relacionada à exploração mineral na região. O processo segue em tramitação na Justiça da Comarca de Dianópolis.
Projeto fortalece o futuro dos quilombos
Ao final do seminário, ficou evidente que a construção dos Planos de Adaptação Climática vai muito além de uma ação técnica.
Trata-se de um processo de fortalecimento da autonomia das comunidades quilombolas, de valorização dos conhecimentos tradicionais e de defesa dos territórios diante dos desafios ambientais cada vez mais complexos.
A expectativa é que o projeto contribua para ampliar a capacidade de resposta das comunidades frente às mudanças climáticas, fortalecendo a luta por justiça climática, direitos territoriais e desenvolvimento sustentável no Tocantins.
Mais do que adaptar-se às mudanças do clima, os quilombolas buscam garantir que seus territórios, suas culturas e seus modos de vida continuem existindo para as futuras gerações.
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