Parecer é o novo ser: Debord e a ditadura do instagramável – Uma análise de como ‘Parecer é o novo ser’ está moldando nossa realidade.
Parecer é o novo ser: Debord e a ditadura do instagramável – A importância de entender que ‘Parecer é o novo ser’ é uma reflexão crítica sobre a sociedade atual.
A cena se repete milhões de vezes por dia. O prato chega à mesa e ninguém come. Primeiro, o celular. Ajusta-se o ângulo, corrige-se a luz, escolhe-se o filtro. Só depois, se ainda houver apetite, a refeição começa. A comida esfriou, mas a foto ficou perfeita. O que importa, afinal: o sabor ou a imagem?
O conceito de ‘Parecer é o novo ser’ se torna cada vez mais relevante na nossa vida cotidiana.
Essa inversão entre viver e representar não é acidental, nem é nova. Em 1967, o pensador francês Guy Debord publicou A Sociedade do Espetáculo, obra na qual identificou uma transformação radical nas sociedades capitalistas: a realidade estava sendo progressivamente substituída por sua representação. Para Debord, o espetáculo não era um conjunto de imagens; era uma relação social inteiramente mediada por elas. Quase seis décadas depois, o diagnóstico soa menos como teoria crítica e mais como descrição literal do cotidiano.
Quando refletimos sobre ‘Parecer é o novo ser’, percebemos como as redes sociais influenciam nossas percepções.
A Revolução do Parecer é o Novo Ser
Debord percebeu uma progressão histórica da alienação. Na fase inicial do capitalismo, o ser degradou-se em ter: a identidade passou a ser definida pela posse. Na fase seguinte, que ele via emergir em seu tempo, o ter cederia lugar ao parecer. A aparência se tornaria a medida última de todo valor. A cultura da vida instagramável é a consumação dessa profecia. A escolha de um destino de viagem, de um restaurante ou de uma atividade de lazer é cada vez mais filtrada por uma pergunta silenciosa: isso renderá uma boa foto?
No fundo, a frase ‘Parecer é o novo ser’ resume a essência da cultura moderna.
No Brasil, o fenômeno tem contornos próprios. O Jalapão, no Tocantins, viu sua visitação explodir após se tornar cenário recorrente de influenciadores, com turistas que chegam já sabendo a pose exata para cada fervedouro, sem nunca ter lido uma linha sobre o Cerrado. Padarias gourmet em São Paulo investem mais na cenografia do croissant do que na massa folhada. Museus instalam salas projetadas para selfies. Corridas de rua atraem milhares de inscritos cuja principal motivação não é a saúde ou o tempo de prova, mas a medalha exibida no stories e a foto no pórtico de chegada.
Portanto, a expressão ‘Parecer é o novo ser’ não é apenas uma crítica, mas também um chamado à reflexão.
A experiência autêntica torna-se secundária diante de sua capacidade de gerar uma imagem atraente. O mundo real se converte em cenário, e o cenário passa a governar o mundo real.
A dimensão econômica confirma a escala do fenômeno. O mercado global de marketing de influência ultrapassou 21 bilhões de dólares em 2024, segundo a Statista, e o Brasil é o segundo país do mundo em número de influenciadores digitais. Esses profissionais monetizam vidas cuidadosamente representadas, tornando-se aquilo que Debord chamaria de imagens-objetos dentro da lógica de consumo. Cafés, hotéis e até paisagens urbanas são projetados com base em sua fotogenia; a própria geografia se transforma em palco.
Em suma, ‘Parecer é o novo ser’ reflete um aspecto vital da nossa existência conectada.
Há, porém, um custo que os filtros não conseguem esconder. Debord advertiu que “quanto mais o indivíduo contempla, menos vive”. A frase aplica-se tanto a quem consome passivamente o feed alheio quanto a quem produz conteúdo. O influenciador que faz a curadoria da própria existência para consumo público fragmenta a vida e se distancia dela. Seus gestos já não lhe pertencem; pertencem à audiência, à marca pessoal, ao algoritmo. A alienação, que Debord descreveu como categoria filosófica, hoje tem métricas: taxa de engajamento, alcance, impressões. Até o sofrimento virou conteúdo.
Debord imaginou um mapa do espetáculo que recobriria exatamente o seu território. Esse mapa existe: é o atlas digital, interativo e personalizado que carregamos no bolso. A ideologia materializada em imagens governa escolhas concretas, do que comemos ao que sentimos. O espetáculo tornou-se, como ele previu, a negação visível da vida. Resta saber se ainda somos capazes de reconhecê-lo como tal ou se já confundimos definitivamente a foto com a refeição.
Assim, a expressão ‘Parecer é o novo ser’ nos leva a questionar o que valorizamos realmente.
Sobre o Autor
Cleiber L. G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica. Especialista em Comunicação, Semiótica, Marketing, Neurolinguística e Psicologia. Membro da Associação Brasileira de Comunicação Pública.


