Queda do regime venezuelano e riscos à segurança brasileira

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regime venezuelanoO cisne negro no Caribe e o efeito hidra: Projeções da queda do regime venezuelano para a segurança pública brasileira


O CISNE NEGRO NO CARIBE E O EFEITO HIDRA: Projeções da Queda do Regime Venezuelano para a Segurança Pública Brasileira


A intervenção militar estrangeira na Venezuela e a consequente captura de sua liderança política configuram um evento de ruptura geopolítica com potencial de transbordamento imediato para o território brasileiro. Este ensaio analisa, sob a ótica das Ciências Policiais e da Inteligência Estratégica, os possíveis cenários de atomização das estruturas criminosas venezuelanas, a reconfiguração das rotas de narcotráfico andino e os riscos de uma crise migratória híbrida, sugerindo que a decapitação do regime poderá não encerrar, mas sim democratizar a violência na região.

Por Cleiber Levy G. Brasilino – Colaboração Ricardo Matias Rodrigues

1. A Epistemologia da Incerteza e o Colapso da Ordem

A história da segurança pública sul-americana poderá ser dividida entre o período anterior e posterior a 3 de janeiro de 2026. A operação que teria culminado na prisão da cúpula do regime venezuelano, sob acusações de narcoterrorismo, representa o que a teoria da complexidade define como um “Cisne Negro”, ou seja, um evento raro, de impacto extremo e que desafia as previsões lineares de estabilidade regional. Contudo, para a Ciência da Polícia, o entusiasmo geopolítico não deve ofuscar a prudência tática necessária aos gestores da ordem pública.

A literatura especializada em combate ao crime organizado transnacional, notadamente os estudos sobre a estratégia de decapitação de lideranças, conhecida como Kingpin Strategy, sugere que a remoção abrupta de uma liderança centralizadora tende a gerar não a paz imediata, mas o caos operacional. Estamos diante da hipótese provável do chamado “Efeito Hidra”, que consiste na fragmentação de uma estrutura hierárquica, neste caso o Cartel de los Soles, em múltiplas células autônomas, violentas e desesperadas por recursos para sua sobrevivência. Para o Brasil, vizinho de porta desta implosão institucional, as consequências poderão ser sistêmicas e severas.

2. O Fenômeno da Migração Híbrida e a Saturação da Inteligência

A “Operação Acolhida”, reconhecida internacionalmente por sua excelência humanitária em Roraima e Amazonas, poderá enfrentar um colapso funcional sem precedentes diante deste novo cenário. Diferente dos fluxos migratórios anteriores, motivados primariamente pela fome e pela crise econômica, o cenário pós-intervenção sugere a formação de uma migração de natureza híbrida.

Neste fluxo, misturados a refugiados civis legítimos, é plausível considerar a infiltração de três perfis de alta periculosidade para a segurança nacional. O primeiro grupo seria composto por operadores de inteligência do antigo regime, oriundos do SEBIN ou da DGCIM, buscando anonimato para escapar da justiça internacional. O segundo grupo envolveria membros do Tren de Aragua, a maior organização criminosa da Venezuela, cuja base operacional poderia buscar uma reterritorialização no sistema prisional do Norte brasileiro. O terceiro grupo seria formado por desertores militares armados, indivíduos com treinamento em guerra assimétrica e acesso a armamento de guerra.

3. A Dispersão do Arsenal: O Risco MANPADS e a Assimetria de Força

Talvez o vetor de ameaça mais crítico para a segurança interna brasileira seja a possível dispersão do arsenal das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas. A Venezuela possui, sabidamente, o maior estoque de sistemas portáteis de defesa aérea da América Latina, especificamente os mísseis russos do modelo Igla-S.

4. A Dinâmica das Rotas: Solimões e a Guerra Logística

A intervenção militar e o provável fechamento do espaço aéreo venezuelano por radares norte-americanos tendem a colapsar a ponte aérea de drogas que ligava os Andes ao Caribe.

5. A Guerra Cognitiva e a Defesa da Soberania Mental

Por fim, não podemos ignorar a dimensão da Guerra Informacional e Cognitiva. O caos na Venezuela servirá como combustível para operações de influência e desinformação em solo brasileiro.

Conclusão

A captura da liderança venezuelana não deve ser interpretada pelas forças de segurança do Brasil como o fim de um problema, mas sim como a mutação de uma ameaça.

Sobre os autores

Cleiber Levy G. Brasilino é Doutor em Gestão Estratégica, Ciências Policiais e Segurança Pública Preventiva, especialista em Comunicação, Gestão Pública, Psicologia, Neurolinguística, Inteligência Estratégica e Direito. Tenente-Coronel da Polícia Militar do Tocantins.

Ricardo Matias Rodrigues é Bacharel em Ciências Econômicas. Possui MBA Executivo em Gerenciamento de Crises e é especialista em Ciências Policiais, Inteligência Competitiva e Contrainteligência Corporativa. Atua como professor de pós-graduação na Escola da Magistratura Federal do Paraná (ESMAFE) e é coautor da obra Alpha Bravo Brasil: Crimes Violentos contra o Patrimônio.

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